A dualidade humana; a existência de um ser desconhecido, ou reprimido, a povoar nosso interior e que sob certas circunstâncias aparece de forma repentina; a busca de si mesmo através de reflexos nos espelhos. Todas essas questões são bastante usuais na literatura, no entanto, é inegável que suas origens remetem ao plano mitológico. De fato, basta observar como as mitologias tradicionais do ocidente abordam a origem da humanidade para termos idéia da dimensão dessa matéria. O texto bíblico Gêneses, por exemplo, ao narrar a origem do mundo expõe que no princípio o homem era apenas um, vindo a se tornar dois após a criação de Eva, estando, desde então, impelido a constante busca de sua outra parte. Na mitologia grega, em uma da várias versões existentes sobre a origem do homem, este teria sido no início um ser uno, mas após afrontar os deuses foi punido com a divisão que, o deixou enfraquecido e confinado a incessante busca de sua outra metade.
Por outro lado, a psicanálise também é riquíssima em explicações e teorias acerca dessa dualidade humana, Jung, por exemplo, considera que todos nós possuímos no inconsciente o elemento do gênero contrário, assim, o homem possuiría a faceta feminina chamada Anima em sua instância inconsciente e a mulher tería a faceta masculina chamada Animus, e, nessa direção, o ser humano apenas conheceria a si mesmo após o estabelecimento de um diálogo com essas instâncias inconscientes, ouvindo menos sua persona (mascara social) e atentando mais para sua demanda interior.
Nossa mente também não está unicamente sob o domíbio da razão, nossas vontades são influenciáveis pelo inconsciente e, de acordo com Jung:
Não resta dúvida de que, mesmo no que chamamos “um alto nível de civilização”, a consciência humana ainda não alcançou um grau razoável de continuidade. Ela ainda é vulnerável e suscetível à fragmentação. (…) Portanto, mesmo nos nossos dias, a unidade da consciência ainda é algo precário e que pode ser facilmente rompido.
Dentre os vários contos que abordam, de alguma forma, essa questão, destaco agora três. Os dois primeiros são de escritores famosos do final do século XIX que, embora, usem estilos diferentes conseguem chegar a um denominar comum. O terceiro é conhecido pelo regionalismo universal e consegue atingir como poucos as nuances da mente humana. Interessante ver nos trechos que se seguem como questões tão intrínsecas a nossa identidade são exploradas a partir do recurso do espelho:
O Horla - Guy Maupassant
Estava claro como se fosse o meio-dia, mas não conseguia ver meu reflexo no espelho! Estava vazio, claro, profundo, cheio de luz! Só que minha imagem não estava refletida nele… E eu, eu estava na frente do espelho! Examinei o grande e claro espelho, de cima a baixo, olhei-o com olhos vacilantes. Não ousei aproximar-me, não me arrisquei a fazer um movimento sequer, sentindo que ele estava ali, mas que novamente me escapara, ele cujo corpo imperceptível absorvera meu reflexo. Como eu estava amedrontado! E então, subitamente, comecei a ver-me através de uma névoa no fundo do espelho, uma névoa que parecia um lençol de água. Parecia-me que a água escorria mais clara a todo momento. Era como o fim de um eclipse. O que quer que ocultasse minha imagem não parecia possuir contornos definidos, mas uma espécie de transparência opaca que ia clareando aos poucos.Afinal, consegui distinguir meu reflexo completamente, como acontece todos os dias quando me olho no espelho. Eu o vira! O horror dessa visão ficou comigo e, mesmo agora, faz-me tremer.
O Espelho - Machado De Assis
- Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra.
- Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado… Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos… Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me… Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéia…
- Diga.
- Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento… Não, não são capazes de adivinhar.
- Mas, diga, diga.
- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e… não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho.
O Espelho – Guimarães Rosa
— Foi num lavatório de edifício público, por acaso. Eu era moço, comigo contente, vaidoso. Descuidado, avistei… Explico-lhe: dois espelhos — um de parede, o outro de porta lateral, aberta em ângulo propício — faziam jogo. E o que enxerguei, por instante, foi uma figura, perfil humano, desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo. Deu-me náusea, aquele homem, causava-me ódio e susto, eriçamento, espavor. E era — logo descobri… era eu, mesmo! O senhor acha que eu algum dia ia esquecer essa revelação?
Desde aí, comecei a procurar-me — ao eu por detrás de mim — à tona dos espelhos, em sua lisa, funda lâmina, em seu lume frio. (…)
Pois foi que, mais tarde, anos, ao fim de uma ocasião de sofrimentos grandes, de novo me defrontei — não rosto a rosto. O espelho mostrou-me. Ouça. Por um certo tempo, nada enxerguei. Só então, só depois: o tênue começo de um quanto como uma luz, que se nublava, aos poucos tentando-se em débil cintilação, radiância. Seu mínimo ondear comovia-me, ou já estaria contido em minha emoção? Que luzinha, aquela, que de mim se emitia, para deter-se acolá, refletida, surpresa? Se quiser, infira o senhor mesmo.
São coisas que se não devem entrever; pelo menos, além de um tanto. São outras coisas, conforme pude distinguir, muito mais tarde — por último — num espelho. Por aí, perdoe-me o detalhe, eu já amava — já aprendendo, isto seja, a conformidade e a alegria. E… Sim, vi, a mim mesmo, de novo, meu rosto, um rosto; não este, que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto — quase delineado, apenas — mal emergindo, qual uma flor pelágica, de nascimento abissal… E era não mais que: rostinho de menino, de menos-que-menino, só. Só.

Espelho
A vida é o espelho
em que me vejo outros
cada vez mais outros.
Absorvo serena
o Universo em mim.
Incontáveis facetas…
Não há moldura
que possa contê-la.
Nem palavra
que possa dizer
a não ser dos reflexos
em espectros
que a cada momento
um me resvala.
Ingrid
O homem desde a historia sempre teve estes conflitos de dualidade
razão x emoção
racional x sentimental
odio x amor
coragem x covardia
e muitos outros, eu tenho um breve testemunho, uma vez na Estação Belém do metrô, eu estava subindo as escadarias do metro, derrepente em fração de segundos, eu vi a minha dualidade, eu descia em imagens duplas a 1ª imagem era de um homem com uma biblia serio com um belo sembante e postura, a 2ª imagem era mais solta, sorridente e boemia com um cigarro na mão e as roupas eram mais abertas e estravagantes, o engraçado é que esta 2ª imagem ria com deboche da 1ª como se tivessem contracenando igual nestas novelas que tem irmãos gemeos.