Desde Freud e o desenvolvimento de estudos sobre o inconsciente, tal termo tornou-se tão conhecido e utilizado na linguagem cotidiana, que a despeito de sua real compreensão a palavra já foi assimilada e incorporada à cultura popular, estando geralmente relacionada a um processo que nos guia ou impele a determinadas ações independentemente de nossos pensamentos conscientes, desejos ou vontades conhecidas. Algo, por exemplo, que nos leva a satisfazer um desejo reprimido. Mas, como este aspecto da mente humana reverbera na literatura fantástica? E falo aqui principalmente da literatura fantástica porque é nela que encontramos o mais fértil terreno para uma criação livre de balizas, ou regras, definidas pelo que comumente se entende por real.
Não pretendo dar aqui nenhum viés psicanalítico acerca da questão. Minha intenção é apenas iniciar, com singelas pinceladas, a composição do que se poderia entender, e principalmente destacar, exemplificar, sobre esta questão, enquanto elemento inserido na literatura fantástica – que ao meu ver se constitui no perfeito reflexo de uma humanidade invisível aos olhos comuns.

E como melhor do que explicar é exemplificar, ou ainda, melhor que entender é viver a experiência – ou em nosso caso ler a experiência – faço uso do livro Freud e O Estranho – Contos Fantásticos do Inconsciente, para desenvolver a questão.
Trata-se de uma antologia de contos unidos pela temática do Estranho enquanto elemento oriundo do inconsciente, do insondável, do mundo simbólico, que reverbera na vida cotidiana. Contos que traduzem bem a idéia de que, tudo que a ciência julga definir, ou nós mesmos entendemos por conhecido e usual, podem se diluir facilmente quando confrontados com estados oníricos, inconscientes, ou sensitivos da mente. Assim, questões e idéias já petrificadas pelo crivo do pensamento racional, instantaneamente se reanimam e assumem novas formas, imagens usuais adquirem contornos diversos, e os olhos que antes se julgavam conhecedores do real, são redescobertos como meras ante-salas de um labirinto impossível de ser plenamente desvendado.
Autores consagrados como Guy Maupassant, Bram Stoker, além de outros tantos nomes menos conhecidos, apresentam contos que nos guiam (ou nos atiram, por melhor dizer) nesses labirintos do fantástico. Seja abordando a influência dos sonhos no mundo real, promovendo uma desconstrução da tradicional forma unidirecional de encarar o tempo, seja destacando imagens sobrenaturais, e revelando acontecimentos sinistros como sombras, ou ecos, de uma mente humana atenta aos mistérios do invisível, esta antologia exemplifica bem, a influência do inconsciente na literatura fantástica, embora, muitas vezes, sob a ênfase de um certo clima de terror.

Trecho do conto O Quarto Na Torre de E. F. Benson, integrante da antologia citada.
O sonho, com tantas variações e mudanças como mencionei, continuou ocorrendo intermitentemente por 15 anos. Algumas vezes eu sonhava por três ou quatro noites seguidas; uma vez, como disse, houve um intervalo de seis meses, mas em média eu diria que o sonhava um vez por mês. Havia, é evidente, algo de pesadelo nele, pois sempre acabava com o mesmo terror, que longe de diminuir, parecia ficar pior cada vez que o experimentava.Havia também uma estranha e assustadora consistência nele. Seus personagens, como mencionei, ficavam cada vez mais velhos, a morte e o casamento visitaram essa família silenciosa, e, depois que a senhora Stone morreu, eu nunca mais a vi no sonho.
Trecho do conto Uma Aparição de Guy Maupassant, também integrante da antologia.
Se ela não tivesse falado, eu morreria, talvez. Mas falou, falou com uma voz doce e dolorosa que fazia os nervos vibrarem. Não ousaria dizer que recobrei o autodomínio e que recuperei a razão. Não. Eu estava desorientado a ponto de não saber o que fazia, porém essa espécie de altivez íntima que tenho em mim e um pouco de orgulho profissional também levavam-me a demonstrar, quase apesar de mim mesmo, uma atitude bastante louvável. Eu fazia pose para mim e para ela, sem dúvida, para ela, quem quer que fosse, mulher ou espectro. Só me dei conta de tudo isso mais tarde, pois vos asseguro que, no instante da aparição, não pensava em nada. (…)
***
O inconsciente é o que falamos, certa vez disse Lacan ao seguir o pensamento freudiano, assim, dirá do que escrevemos. Afinal, um texto literário é produzido enquanto fruto de processos mentais, e em seu corpo literário estão presentes não apenas as impressões conscientes da realidade, mas, no caso específico na literatura fantástica, principalmente as impressões inconscientes, seja a nível individual ou coletivo, e justamente por isso podemos perceber uma forte ligação entre algumas histórias fantásticas e o mito, vez que, nesse sentido, ambos surgem como produtos de um marenostrum de idéias e imagens comuns.
A literatura fantástica está ligada a uma série de características bem conhecidas do mundo onírico, permitindo a criação e o desenvolvimento de idéias que no mundo real seriam, muitas vezes, impossíveis de realização.
Como a linguagem dos sonhos, o Fantástico se permite qualquer tipo de livre associação, deslocação, condensação de imagens ou de cenas, paradoxos do tempo e do espaço, de acordo coma intuição do autor.(…) Nesse sentido, o Fantástico não é uma fuga ou um recuo diante do Realismo, mas um passo além, contando histórias que o Realismo não pode contar pela sua limitação auto-imposta. (Trecho do prefácio de Freud e O Estranho – Contos fantásticos do inconsciente.)

Muito interessantes, o livro e o seu texto.bjs
Legal, achei superinteressante a matéria. vou dar um jeito de adquirir essa coletânea.
se me permite, gostaria de deixar aqui o endereço de meu blog, se tiver um tempinho e quise dar uma olhadinha, creio q os conteúdos se assemelham:
http://alemdameianoite.blogspot.com/
Abração.