Traduções da obra Noites Brancas – diferenças gritantes
setembro 17, 2008 por Flávio Umaguma
Após ler em um blog uma postagem sobre as discrepâncias existentes em algumas traduções da obra Noites Brancas de Dostoiévski, não pude conter minha vontade de também escrever algo sobre o assunto. No blog em questão constatou-se como a tradução de um livro virtual(um e-book) poderia ser diferente de uma outra tradução presente num livro de bolso, todavia fiquei assombrado quando comparei essas duas versões com a mesma obra traduzida pela editora 34, sabidamente uma das melhores editoras nesse seguimento. Nessa comparação além de diversas passagens diferentes, encontramos até problemas mais graves como frases com sentidos diferentes. Assim fico me perguntando: se apenas no primeiro parágrafo da obra Noites Brancas já constatamos tantas diferenças, o que impede que ao longo do livro essas traduções se tornem tão diferentes do original a ponto de perderem boa parte do sentido da obra? Nem me importo tanto com a obra virtual presente nos famosos e-books, pois como todos sabem sua confiabilidade é nenhuma, mas estou me referindo principalmente aos livros de bolso que apareceram como uma boa opção de leitura a preços populares, surgiram numa tentativa de tornar a literatura mais acessível as camadas menos capitalizadas.
Isso me deixa inquieto, pois também já li vários desses livros bolso e detestaria saber que o sentido do texto de alguma obra foi gravemente prejudicado por traduções mal feitas.
Assim deixo a pergunta: os livros de bolsos são confiáveis ou não passam de meras sombras confusas das obras estrangeiras?
Aqui estão algumas traduções da obra “Noites Brancas” de Dostoiévski:
Tradução do livro virtual
“Era uma noite maravilhosa, uma dessas noites que apenas são possíveis quando somos jovens, amigo leitor. O céu estava tão cheio de estrelas, tão luminoso, que quem erguesse os olhos para ele se veria forçado a perguntar a si mesmo: será possível que sob um céu assim possam viver homens irritados e caprichosos? A própria pergunta é pueril, muito pueril, mas oxalá o Senhor, amigo leitor, lha possa inspirar muitas vezes!…”.
Tradução do livro de bolso
“Uma noite prodigiosa, uma dessas noites que talvez só vejamos quando somos novos, querido leitor. O céu estava tão fundo e tão claro que ao olhá-lo uma pessoa era forçosamente levada a perguntar-se se seria possível que debaixo de um céu daqueles pudessem viver criaturas más e tenebrosas. Questão esta que, para dizer a verdade, só é costume levantar-se quando somos jovens, muito jovens mesmo, querido leitor. Prouvera a Deus que pudésseis reviver com freqüência essa idade na vossa alma! Enquanto ia pensando assim em várias pessoas, é claro que acabava por recordar-me involuntáriamente do penegírico que a mim próprio eu havia tecido, nesses tempos.”.
Tradução da editora 34
“Era uma noite maravilhosa, uma noite tal qual como só é possível quando somos jovens, caro leitor. O céu estava tão estrelado, um céu tão luminoso, que ao olhá-lo seríamos obrigados a nos perguntar infalivelmente: como pode viver sob um céu assim toda sorte de gente irritadiça e caprichosa? Esse também é um questionamento de quem é jovem, caro leitor, muito jovem, mas que Deus o possa inspirar-lhe muitas vezes!… Falando sobre toda sorte de senhores irritadiços e caprichosos, eu não podia deixar de recordar minha boa conduta durante todo aquele dia.”
Sobre a tradução virtual acho que a mera leitura já é o bastante para entendermos o quanto ela é ridícula afinal utilizar a expressão “mas oxalá o Senhor” como tradução de um trecho que está se referindo a Deus num país do século XIX de religião Cristão Ortodoxa como a Rússia é tão equivocada que fico me perguntando se o tradutor não estava apenas querendo se divertir as custas do leitor desse livro virtual. Portanto deixemos de lado qualquer comentário sobre essa tradução virtual.
Agora quanto a tradução do livro de bolso e da editora 34 surgiram algumas questões relevantes, pois além do óbvio uso de palavras diferentes (em alguns casos com um enorme mal gosto) para descrever uma mesma cena, devemos prestar atenção na diferença de sentido textual presente no primeiro trecho, que marquei em negrito de cada tradução. Observem que enquanto o livro de bolso afirma que “O céu estava tão fundo e tão claro que ao olhá-lo uma pessoa era forçosamente levada a perguntar-se se seria possível que debaixo de um céu daqueles pudessem viver criaturas más e tenebrosas” dando um sentido de dúvida quanto a real existência ou não de criaturas más e tenebrosas debaixo daquele céu; na tradução da editora 34 o sentido é diverso conforme se observa a seguir “O céu estava tão estrelado, um céu tão luminoso, que ao olhá-lo seríamos obrigados a nos perguntar infalivelmente: como pode viver sob um céu assim toda sorte de gente irritadiça e caprichosa?” , que visa expor a idéia de que criaturas irritadiças e caprichosas certamente existem, mas apenas as razões que impelem esses seres a tal tipo de temperamento é desconhecida, além é claro da enorme diferença entre essas palavras e as utilizadas pelo livro de bolso.
Após isso fico a me perguntar: se logo no início da obra já se verificou diferenças até no sentido textual como ter a certeza de que uma ou ambas as traduções não estão contrariando mais adiante outros inúmeros sentidos até mais importantes que o autor quis imprimir? Como saber se o que eu acho que é o pensamento de Dostoiévski não passa de mera “viagem” do tradutor?
Nesse contexto me preocupo principalmente com a situação dos livros de bolso, com todas as leituras que fizemos e que podem possuir distorções graves no seu sentido…
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Interessante seu ponto de vista. S� que a minha id�ia era de que a qualidade da tradu�o � mesmo importante, mas o mundo n�o � dado, e sim concebido. Ent�o, desde que o texto esteja l� com um pouquinho de vontade concebe-se a coisa toda. � uma opini�o pessoal de quem n�o tem muito como fugir das m�s tradu�es. Posso estar equivocada.
Beijos.
Olá chapeleiro! Saiba que visitei seu blog e me chamou a atenção o comentário sobre livros de bolso e suas traduções. Há lgum tempo vc me emprestou um livro desse tipo: A morte de Ivan Ilich. Gostei do livro, não sei se a obra possui a melhor tradução do original. De qualqer forma, gostaria de postar meus votos de boa sorte no seu blog.
Abraço carinhoso.
:) valeu! espero tenhas gostado do blog, bem como que estejas aproveitando bem tuas férias,
abração pra ti Alaíde ;)
(gostei de saber que visitaste meu blog.)
Olá,
sempre interessante. Quando conhecemos os dois idiomas e comparamos mais de uma tradução, aí é que o discrédito aflora. Imagine que há traduções de obras importantes, clássicas e eclesiásticas feitas do latim. As barbaridades se multiplicam.
A epidemia é perene. Eu tinha om grosso volume da Ed. Aguillar (em espanhol) contendo obras de Anton Tchekov. Numa determinada peça, o russo se refere a um hino de uma cerimônia religiosa ortodoxa e o tradutor ou o editor prontamente nos brindou uma nota onde explica ao leitor tratar-se do canto Agnus Dei, que nunca existiu na Liturgia ortodoxa. Ridícula ainda a passagem de uma obra séria de Daniel Rops, com referência ao hino (grego) do Ofício de Vésperas: Fós hilarón (Doce luz). O tradutor, ou o editor chutou a tradução: O fogo do Hilário. É Brincadeira.
Na obra Os Três Diálogos (de Vladimir Soloviov) o conceituado tradutor de russo para inglês chutou feio certas passagens, como aquela em que o filósofo russo menciona um trocadilho com uma figura de silogismo astistotélico. O tradutor estragou a passagem. Vou parando por aqui para não perturbá-lo.
Boa noite.